JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

O amor...

Quem não amou, não pode falar do amor, nem da dor quem não a sofreu. A experiência que se teve é a única reveladora da verdade. Todo o ser humano precisa de amar e ser amado. A falta de amor produz uma sensação de isolamento, traduzido num sentimento de esvaziamento difícil de preencher. Muitos crêem que o amor é uma questão de sorte, como na lotaria, mas não é assim, porque o verdadeiro amor exige esforço e sabedoria. 

O tema do amor ocupa um espaço enorme nas nossas vidas; muitas palavras se escreveram sobre o amor, milhares de canções são baseadas no amor e até as tragédias passionais têm a ver com o amor. A maioria das pessoas pretende ser amada e todo o esforço está orientado para atrair alguém que a ame disposto a satisfazer a sua necessidade de afecto, sem ter em conta a própria capacidade de dar amor.

Ninguém crê que seja necessário aprender algo sobre o amor, porque o consideram um arrebatamento singular da natureza, confundindo desta forma uma ocasional experiência emocional com o verdadeiro amor. Também, ninguém quer renunciar ao amor romântico e desejam que de seguida se consolide e se transforme em algo sempre romântico mas também sério, comprometido e que consiga transcender o desgaste do tempo. 

Estamos imersos numa sociedade de consumo onde tudo se compra e se vende para ser usado. A linha divisória entre objecto e pessoa não é tão nítida como era habitual na época em que nem tudo se podia comprar.

As escolhas do casal não se baseiam em sentimentos, mas em requisitos a cumprir dentro do espectro da procura geral, determinado pela cultura e pelas modas. Desta maneira cada um oferece a sua mercadoria, fazendo que no intercâmbio não exista um desequilíbrio de valores que possa interferir na relação.

É um modo de estabelecer vínculos quase tão parecidos como os dos casais acomodados de antigamente, que nos pareciam tão ridículos e frios. No entanto, apesar de tomar previsões de toda índole e tratar de encontrar alguém com interesses compatíveis, os casais fracassam. Estes fracassos demonstram-nos que manter um amor verdadeiro não é inato nem prefabricado, mas que exige aprendizagem. Pode-se aprender a amar para sempre alguém se tivermos uma maior consciência de quem somos, não do que aparentamos ou queremos ser.

O sentimento de isolamento é próprio da natureza humana e é a origem da angústia. A vida do homem actualmente centra-se no pensamento de como superar a sua solidão. É difícil superar o estado de separação e recuperar o desejo de pertença e união, numa sociedade onde o indivíduo não se pode diferenciar do outro.

A massificação atenciosa contra a identidade, converte-nos em objectos que são mais valorizados e aceites na medida em que fazem, dizem, usam, e pensam o mesmo. O único sentimento que pode salvar o homem do mundo robotizado que criou é o verdadeiro amor, interpretado como uma união, cuja condição essencial é o respeito pela sua individualidade.

A união amorosa que respeita a individualidade é a única que pode evitar a angústia, que provoca o isolamento e ao mesmo tempo permite a pessoa ser ela mesma. O amor não pode ser nunca um arrebatamento passional, mas deve ser um acto de entrega onde dar é mais importante do que receber. Não significa uma forma de dar sacrificando-se ou sofrendo, mas de dar o melhor de si convertendo o outro também num dador e criando felicidade para os dois.

O amor é um poder que produz amor, sempre que nenhum dos dois seja tratado como um objecto de uso. Se uma pessoa não superou a dependência, omnipotência narcisista e o desejo de manipular para conseguir os seus fins egoístas, tem medo de dar-se e portanto, também medo de amar.

Porque amar exige cuidado, atendimento, responsabilidade, respeito e sabedoria; e a essência do amor é fazer o esforço necessário para que cresça. A responsabilidade implica estar disposto a responder e não significa um dever ou algo imposto desde o exterior.

Respeitar uma pessoa significa a capacidade de vê-la tal qual é, ter consciência da sua individualidade única e preocupar-se para que cresça e se desenvolva tal como é, não como o outro deseja que seja, como um objecto para seu uso.

A sabedoria é imprescindível para entender o outro nos seus próprios termos e para chegar a conhecê-lo através da união amorosa, sem necessidade do pensamento. É como a experiência de Deus, que não se trata de um conhecimento intelectual, mas sim de um sentimento de intimidade e união com Ele, e o amor ao outro é o primeiro passo para a transcendência.

Longe do que se supõe, o amor não é o resultado da satisfação sexual adequada, pelo contrário, a felicidade sexual e os completos conhecimentos das técnicas sexuais, são o resultado do amor.

O temor ou o ódio ao outro sexo são a base das dificuldades que não permitem a pessoa entregar-se por completo e a espontaneidade e a confiança diluem os problemas. O amor verdadeiro não implica ausência de conflito. Os conflitos reais da realidade interna de cada um, contribuem para aclarar e libertar energias e fortalecer o casal.

O amor só é possível quando a comunicação entre duas pessoas não se realiza desde a superficialidade do ego, mas desde a sua parte essencial. Não é algo estático nem calmo, é um desafio constante de duas liberdades que querem por em conjunto tudo e crescer juntos.

 Jorge Rodrigues Simão, in “Sociedade e Vida”, 20.06.2010
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