JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

O clube de Shangai

“Oil is transforming world politics. Iran can afford to face down the wrath of the West and be robust about becoming a nuclear power because it has the cast-iron support of China - secured by oil”.

Will Hutton

 

Quase despercebida e desconhecida, a Organização de Cooperação de Shangai (OCS), realizou-se no dia 15 de Junho, a sua reunião anual, na capital económica do Sul da República Popular da China. Trata-se de um fórum regional constituído pela China, Rússia, Cazaquistão, Tajiquistão, Uzbequistão e Kirgistão.

As atenções recaíram sobre o Presidente do Irão, país que nesta organização goza do estatuto de observador.

O Chefe do Estado iraniano aproveitou a sua presença em Shanghaï para denunciar os que querem dominar o mundo e interferem nos assuntos de outros Estados, numa clara e transparente referência aos Estados Unidos que por sua vez, criticou a OCS por ter convidado o representante de uma nação terrorista.

Em 1996, os chineses inspiraram a criação, em Shangai de uma organização que agrupa cinco Estados transfronteiriços da Ásia central. A esse grupo deu-se o nome de “Mecanismo dos Cinco de Shanghaï”, que compreende a China, Rússia, Cazaquistão, Kirgistão e o Tajiquistão.

Em 2001, o Uzbequistão torna-se membro e é rebaptizada com o nome actual de OCS.

A OCS adopta como objectivo (quem o diria) combater o extremismo, o terrorismo e o separatismo, num contexto de ascensão das forças islamitas e das tensões étnicas na Ásia Central.

Na realidade, a China e a Rússia usam esta Organização para travar a penetração americana na região. O admitido Estado do Irão, na qualidade de observador, tenta reforçar essa orientação antiamericana.

Entendido pelos Estados Unidos como um fórum, que visa contrabalançar a influência americana na região, esta organização reúne Estados que contam com mais de metade da população mundial, como precisava a declaração final da Reunião, que comemorou, o seu quinto aniversário na China.

Um dos encontros marcos do dia 16, seguinte à Cimeira foi a reunião entre os Presidentes iraniano e chinês, em que o primeiro deu a conhecer o recente pacote de propostas feitas ao Irão, no início Junho em Viena, e apresentadas pelos cinco membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas (do qual a China é parte e que as conhece), e a Alemanha, em troca da promessa do Irão de suspender o seu programa de enriquecimento de urânio, o que constituía um passo em frente, ao qual o Presidente do Irão afirmaria que daria uma resposta em tempo oportuno, em conformidade com os interesses da República islâmica do Irão.

Interessante que antes desta reunião e do conhecimento dado à China da posição do Irão, e só podia ter o intuito, de aquela transmitir ao Conselho de Segurança, a sua posição e de que nada faria sem ouvir a China.

Por outro lado, o Presidente chinês retribuiu a simpatia, quando antes da reunião felicitou o Presidente iraniano por ter apoiado os investimentos chineses no Irão, quando era presidente da Câmara Municipal de Teerão, e agora que é Presidente da República, esperava a oportunidade para fazer evoluir as relações sino-iranianas a nível superior.

As entrelinhas desta troca de galhardetes têm muito que dizer e iremos ver na continuação do desenrolar deste filme a posição pró Irão da China. Sobre o fundo embelezado das relações sino-russas, o Presidente da Rússia, manteve uma reunião com o Presidente do Irão tendo afirmado o direito do Irão de usar a elevada tecnologia, aconselhando o seu parceiro a fazê-lo de forma a não suscitar apreensões por parte da comunidade internacional, esperando a resposta à oferta dos 5 Estados-membros do Conselho de Segurança + Alemanha.

Acerca do programa de energia nuclear iraniana, as posições da China e da Rússia, que ambos mantêm relações económicas e diplomáticas estreitas com a República Islâmica do Irão, têm todavia e apesar desse facto evoluído e aproximando-se das posições dos outros Estados-membros do Conselho de Segurança, aquando das propostas apresentadas ao Irão.

Todavia, a Rússia e a China continuam a ser hostis a qualquer ideia de sanções contra o Irão, caso as negociações não produzam resultados.

Os russos e os chineses consideram que tais sanções sejam tornadas aplicáveis apenas através de resoluções posteriores no Conselho de Segurança, o que lhes permitia demarcarem-se desta ideia caso se venha a tornar realidade, uma vez que os Iranianos podem ter necessidade de tempo suplementar, na afirmação feita pelo governo chinês a propósito da resposta do Irão à oferta dos Seis.

Entretanto, o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão desabafava para o seu homólogo chinês que devia demonstrar paciência. Fora do quadro oficial da reunião, não houve declarações antiamericanas, e o Presidente russo afirmou que os Estados Unidos estimam que a Rússia e a China façam parte da causa comum, com vista a resolver alguns problemas, nos quais se inclui a questão do programa nuclear iraniano.

O Presidente russo não apoia a participação da Índia e do Paquistão, mesmo que o seja na qualidade de observadores e que o Irão seja atraído.

Nenhum desses países pode influenciar a organização, o que constitui motivo de preocupação.

Para além do Irão, Índia, Mongólia, Paquistão e o Turquemenistão beneficiam dessa qualidade, e este ano foi convidado o Presidente do Afeganistão, país que compartilha uma pequena fronteira com a China.

Durante os cinco anos da criação da OCS, este ano despertou um súbito interesse.

Notou-se neste encontro anual, onde os países com qualidade de observadores o seu interesse em aderir.

Para além dos objectivos mencionados, a OCS, tem um outro, que é o de promover a integração na Ásia Central. Deve-se considerar neste contexto, o peso das repúblicas muçulmanas produtoras de petróleo muito próximas do Irão.

O sucesso do Clube de Shanghai dá-se devido ao aumento da procura e dos preços de hidrocarbonetos. Não é em vão, que a Rússia detém as maiores reservas em termos de volume, e a China o maior consumidor, com mais de 2100000 barris diários.

A dura concorrência em torno do abastecimento e oleodutos para os maiores mercados importadores do Ocidente e Oriente é percebida de forma clara pela OCS.

A União Europeia e os Estados Unidos estão a namorar diplomaticamente o Clube. Os europeus põem ênfase nos hidrocarbonetos, como o gás, em particular, e os americanos praticam um jogo orientado a partir do Pentágono e do seu pouco êxito na política do Oriente que têm praticado.

Nas repúblicas da Ásia Central, a luta entre potências para controlar as fontes de energia e combustíveis oferece atraentes oportunidades de obter maiores vantagens.

Seja em assistência financeira, segurança ou investimentos. A presença do Irão, interessado em juntar-se ao Clube, sublinha a relevância de um grupo até agora impensado.

A OCS criou-se como um contrapeso à influência dos Estados Unidos na Ásia Central (como afirmámos), com frequente interesse manifestado por meio de empresas privadas ou em instalações militares.

Trata-se de um ponto estratégico para a China e Rússia. Mas a primeira é renitente a encarar os Estados Unidos, por depender de capitais americanos e das exportações que criam o seu desenvolvimento económico.

A Organização carece de ambições militares ou estratégicas. Não deseja ser uma versão Oriental da NATO. Os japoneses não estão tão seguros e por isso mantém uma cautelosa distância. Com o Irão a pressionar a entrada, e apesar, da OCS ter afirmado que não tem por objectivo aumentar o número de membros, devido à oposição da Rússia, existe um grupo de contacto com o Afeganistão.

Aparte do petróleo, o Irão detém uma das maiores reservas mundiais de gás natural inexploradas por falta de capitais.

A China e a Índia procuram desenvolvê-las, ainda que, transportá-las implique a construção de oleodutos por territórios em problemas. Sem dúvida, a beneficiária principal do Clube é a China, notando-se no seu papel como intermediária entre o Irão e o Ocidente, em especial a União Europeia.

A China tem as suas razões poderosas para a actividade oblíqua da sua diplomacia, complementado pelo seu papel, conjuntamente com a Rússia, na difícil tarefa de desactivar a ameaça nuclear norte-coreana.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 14.07.2006
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